De Povos Indígenas no Brasil

Notícias

Fundos que fazem gestão de R$ 65 tri pedem ao Brasil que proteja Amazônia

19/09/2019

Fonte: FSP, Mercado, p. A21



Fundos que fazem gestão de R$ 65 tri pedem ao Brasil que proteja Amazônia
230 fundos que administram R$ 65 trilhões pedem ao Brasil que proteja Amazônia
Grupo inclui gestores ligados a grandes instituições como grupo Mitsubishi, HSBC e BNP Paribas

Fabiano Maisonnave
Arthur Cagliari
MANAUS e SÃO PAULO

Em comunicado conjunto, 230 fundos de investimento, que juntos administram US$ 16 trilhões (R$ 65 trilhões), pedem ao Brasil que adote medidas eficazes para proteger a floresta amazônica contra o desmatamento e as queimadas.

"Estamos preocupados com o impacto financeiro que o desmatamento pode ter sobre as empresas investidas, aumentando potencialmente os riscos de reputação, operacionais e regulatórios. Considerando o aumento das taxas de desmatamento e os recentes incêndios na Amazônia, estamos preocupados com o fato de as empresas expostas a desmatamento potencial em suas operações e cadeias de suprimentos brasileiras enfrentarem uma dificuldade crescente para acessar os mercados internacionais", diz a nota divulgada nesta quarta-feira (18).

Integrantes do setor de fundos, que falaram com a Folha na condição de anonimato, consideraram a iniciativa atípica, mas relevante -uma espécie de alerta para o Brasil por causa da dimensão de muitos dos fundos envolvidos.

As carteiras sob a gestão do grupo somam um volume de recursos que supera o PIB da China, por exemplo, que está na casa de US$ 13 trilhões (R$ 58 trilhões). O maior da lista é o francês Amundi, principal fundo da Europa e o nono na lista dos maiores do mundo. O Amundi administra € 1,4 trilhão (R$ 6,34 trilhões), montante que praticamente equivale ao PIB do Brasil.

Também assinam o manifestado a gestora britânica Aberdeen, que adminsitra € 562 bilhões (R$ 2,52 trilhões), o Macquarie Asset Management, da Austrália, com carteira de € 306 bilhões (R$ 1,38 trilhão) e o canadense CDPQ (Caisse de dépôt et placement du Québec), que tem € 198 bilhões (R$ 896 bilhões), segundo publicação da empresa europeia IPE, de junho deste ano.

O Aberdeen possui participação na BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, e detém ações de muitas outras empresas do Brasil. O australiano Macquarie criou um fundo focado em negócios de infraestrutura para Brasil e América Latina. O CDPQ é sócio da Engie no TAG (Transportadora Associada de Gás), ativo que foi comprado da Petrobras em abril deste ano.

O manifesto também tem apoio de fundos ligados a instituições de ensino, bem como de fundos de pensões de países como Noruega, Suécia e Suiça. O destaque nessa categoria de investidores que pede mais cuidado com a floresta brasileira é o Capers, fundo de pensão dos funcionários da Califórnia, que administra US$ 363 milhões (R$ 1,46 trilhão).

Os fundos brasileiros SulAmérica e Fama, que administram respectivamente R$ 374 bilhões e R$ 2 bilhões, também assinaram o manifesto.

Para Fabio Alperowitch, diretor financeiro da Fama, a preocupação dos investidores com o meio ambiente sempre existiu, mas que o tema ganhou mais relevância com o aumento dos incêndios e com a inabilidade do governo ao tratar do tema.

"O que aconteceu é que a discussão ganhou intensidade. As queimadas sempre existiram, mas aumentaram muito. O governo também não apenas foi inábil para lidar com o tema como fomentou a questão, ao tomar iniciativas contrárias ao combate do desmatamento e das queimadas. O investidor estrangeiro começou e reagir", disse.

"Eles ficam assustados até pelo o que aconteceu com a Vale. São assuntos distintos, mas nenhum investidor estrangeiro gostou de ter seu nome associado a uma empresa que foi negligente. Então esse cuidado que eles já tinham fica agora redobrado."

No final do dia, o porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros fez um pronunciamento oficial em resposta aos fundos. Disse que o governo está adotando "todos os esforços" para fazer frente à crise ambiental.

"Estamos, por meio das gestões do ministério da Defesa e do ministério do Meio Ambiente, sob a coordenação do presidente da República, colocando todos os esforços do nosso país para atender esta crise referente às queimadas e desmatamentos", declarou Rêgo Barros.

"Sempre no entendimento de que o trabalho realizado pelo governo federal é de alto gabarito e que tem como objetivo final debelar essa crise, que é momentânea. E muito mais do que isso: reativar a narrativa de que é necessário a proteção ambiental com desenvolvimento sustentável e atenção à sociedade", concluiu o porta-voz.

A iniciativa da carta das 230 gestoras surgiu dos grupos sem fins lucrativos PRI (sigla em inglês para Princípios para Investimento Responsável) e Ceres. Na linha do que defendem as entidades, o documento reforça o discurso da importância do investidor ao olhar para o futuro, observando o ambiente e a emissão de carbono.

"Como investidores, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos serviços ecossistêmicos", diz o texto, subscrito por fundos de 30 países.

"O desmatamento na região pode potencialmente aproximar perigosamente todo o ecossistema de um ponto de inflexão, após o qual a floresta tropical não será capaz de se manter, gradualmente se transformando em um sistema mais parecido com a savana, muito mais seca, menos biodiversa e que armazena significativamente menos carbono."

Ao pontuar os impactos naturais que o desmatamento na região pode causar, o texto apresenta links que levam a pesquisas que corroboram suas teses. No primeiro estudo, por exemplo, há dados sobre a importância da Amazônia como um ponto de inflexão para o clima.

"Se a área de floresta tropical diminuir, a umidade subindo da floresta tropical também diminuirá, o que restringirá o resultado das chuvas na Amazônia e promoverá o desaparecimento da floresta tropical", diz a pesquisa.

Embora faça o alerta, o documento dos fundos de investimento também elogia duas iniciativas do setor privado brasileiro, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Em comunicados recentes, ambos criticaram o desmatamento sem controle.

Na avaliação da ONG norueguesa Rainforest Foundation Norway (RFN, na sigla em inglês), o comunicado conjunto de um grupo tão grande de fundos de investimento em defesa da Amazônia é uma ação sem precedentes.

"Esse documento deveria ser um alerta definitivo para os negócios cúmplices do desmatamento. Caso percam o capital dos investidores, eles se arriscam a quebrar", diz Vemund Olsen, conselheiro da RFN, em nota.

Em declarações recentes, o governo Jair Bolsonaro (PSL) tem refutado ou minimizado as mudanças climáticas e o desmatamento ilegal, além de rechaçar críticas vindas de países como França e Alemanha.

Leia a íntegra íntegra do manifesto.

VEJA LISTA DOS FUNDOS:
A.S.R. asset management
Aberdeen Standard Investments
ACTIAM
Aegon Asset Management
Aktia
Allegra Wealth
AMF
Amundi
AP Funds' Council on Ethics
AP2
AP3 Third Swedish National Pension Fund
AP4 - Fourth Swedish National Pension Fund
APG Asset Management
Apis Partners LLP
Arisaig Partners
As You Sow
Ashmore Group
Atkinson Foundation
Aurum Fund Management Ltd.
Australian Ethical Investment
Aviva Investors
B & Capital
B&I Capital
Baillie Gifford
BaltCap AS
Bâtirente
BayernInvest Kapitalverwaltungsgesellschaft mbH
BCEE Asset Management S.A
Blue Oceans Capital
BMO Global Asset Management
BNP Paribas Asset Management
Boston Common Asset Management
Brunel Pension Partnership
Caisse des Depots
CaixaBank Asset Management
California Public Employees' Retirement System
CANDRIAM
CCLA Investment Management
CCOO, FP
Charles Stanley
China Alliance of Social Value Investment (Shenzhen)
China Asset Management Co., Ltd.
Christian Brothers Investment Services, Inc. (CBIS)
Christian Super
Church Commissioners for England
Church of England Pensions Board
Circularity Capital LLP
Cliens Kapitalförvaltning AB
COMGEST
Conser Invest
Coöperatie DELA
CREA Asset Management Trust Reg
CreditValue-Partners GmbH
CRF for Local Government
Daintree Capital
Deka Investment GmbH
Devon Funds Management
DNB Asset Management
Domini Impact Investments LLC
DPAM
ECOFI Investissements
Econopolis
EFG AM
EQ Investors Limited
ERAFP
Erste Asset Management GmbH
ESG Moneta Co., Ltd.
ESG Portfolio Management
Environment Agency Pension Fund
Ethos Fund3
Evenlode Investments
Everence and the Praxis Mutual Funds
Evli Bank
FAMA Investimentos
Fidra
Figure 8 Investment Strategies
FiNet Asset Management AG
First Affirmative Financial Network
First State Investments
Folksam
Fondo de Pensiones de Empleados de Telefonica
Forbion
Forsta AP-fonden Friends FIduciary Corporation
Friends Provident Foundation
Geroa Pentsioak EPSV de Empleo
Gjensidigestiftelsen
Glennmont Partners
Green Century Capital Management
Guardian Media Group
GW&K Investment Management
Hancock Natural Resource Group, a Manulife Investment Management Company
Handelsbanken Asset Management
Hermes Investment Management
HESTA
Hexavest
HSBC Global Asset Management
Impact Investors
Impact Shares
Impax Asset Management
Impax Asset Management LLC
Indép'AM
Insight Investment
Institute of Green Investment, Hangzhou
Integral Group
Interfaith Center on Corporate Responsibility
Invest in Visions GmbH
ISGAM AG
JLens Investor Network
Joseph Rowntree Charitable Trust
KBIGI
Khumo Capital (Pty) Ltd
KLP
La Financiere de L'Echiquier
La Française Group
Länsförsäkringar AB
Länsförsäkringar AB
Legal & General Investment Management
LGPS Central
Liontrust Investment Partners LLP
LocalTapiola Asset Management Ltd
Lothian Pension Fund LUCRF Super
Macquarie Investment Management Europe S.A., ValueInvest
MAIF
Maitri Asset Management Man Group
Manulife Investment Management
Mayar Capital
Mercy Investment Services, Inc.
Merian Global Investors
Merseyside Pension Fund
Midat Cyclops, FP
Middletown Works Hourly and Salaried Union Retirees Health Care Fund
Mirova
Mitsubishi UFJ Trust and Banking Corporation
MN
Montrusco Bolton Investments Inc.
MP Pension
Muzinich & Co
NEI Investments
Neumeier Poma Investment Counsel, LLC
New Forests
New Zealand Funds Management Limited
NewAlpha Asset Management
Niederösterreichische Vorsorgekasse AG
NN Investment Partners
Nordea Asset management
North East Scotland Pension Fund
Northern Ireland Local Government Officers'Superannuation Committee (NILGOSC)
ODIN Fund Management
OFI AM
Ohman Fonder
OPTrust
OREIMA
Osmosis Investment Management
OSTRUM Asset Management
Ownership Capital
P+(DIP/JØP)
PCJ Investment Counsel
Pensions Caixa 30
Picard Angst AG
Pictet Asset Management
Polden-Puckham Charitable Foundation
Principled Investing LLC
Raiffeisen Capital Management
RAM Active Investments SA
Rathbone Brothers Plc
Remy Brown Investment Group
Rivage Investment SAS
River and Mercantile Group Plc
Robeco
RobecoSAM AG
RRSE (Regroupement pour la Responsabilite Sociale des Entreprises)
Sanso Investment Solutions
SBI Funds Management Private Limited
SDG Invest
Seventh Generation Interfaith Inc.
Sindicatum Renewable Energy
Skandia
Smart Private Managers (Luxemburgo) S.A.
Societa Cattolica di Assicurazione - Societa cooperativa
Sophia University
Sparda-Bank Muenchen eG
Sparebank1 Forsikring
Sophia Financial Group
Stance Capital, LLC
Stephen Whipp Financial, Leede Jones Gable Inc.
Stewart Investors
Storebrand Asset Management
Storm Capital Management AS
Strathclyde Pension Fund
SulAmérica Investimentos
SustFin Swedbank Robur Fonder AB
Swisscanto Invest by Zürcher Kantonalbank
Tareno AG
TD Asset Management
The Episcopal Church (DFMS) and The Episcopal Diocese of New York - Diocesan Investment Trust
The Local Authority Pension Fund Forum
The Sustainability Group of Loring, Wolcott & Coolidge
The Swedish Foundation for Strategic Environmental Research (Mistra)
TOBAM
Tradeka Corporation
Transport for London Pension Fund
Tressis
Trillium Asset Management
Trinetra Investment Management
Triodos Investment Management
Triple Jump
Trust Investments Management Limited
UBP S.A.
Union Investment
Unison Staff Pension Scheme
University of Toronto Asset Management Corporation
USS
Vallis Capital Partners
Vantage Capital VBV - Vorsorgekasse AG
VBV Pensionskasse
VidaCaixa
VISIO FUND MANAGEMENT
Wespath Benefits and Investments
Zevin Asset Management
Zilliard Capital Partners


Frente a nova chuva de dólares e euros pelo mundo, Brasil pode acabar ficando na seca
Como em 2009, país poderia se beneficiar desse dinheiro se contas estivessem mais ajustadas e se o governo se mostrasse mais confiável


Fernando Canzian
SÃO PAULO

O Brasil tem uma inserção minúscula na economia global: responde por 1,2% de todo o comércio internacional e produz somente 2,5% dos bens e serviços do planeta.

São frações quase ridículas para um país democrático de 210 milhões de habitantes. Isso traz pouca competitividade e atrasos que custam caro, seja pela via de preços internos elevados ou pela baixa qualidade do que consumimos.

Até o grande boom das commodities dos anos 2000, o país mal se inseria na engrenagem comercial global -e ainda o faz predominantemente com produtos básicos.

Já a participação relativa na produção de bens e serviços vem encolhendo há anos com o crescimento acelerado dos países asiáticos.

Mas, no momento em que os Estados Unidos e alguns países europeus parecem condenados a um desaquecimento mais acentuado (ou a uma recessão), o isolamento do país poderia ser uma vantagem.

No auge da crise global em 2009 (a chamada Grande Recessão), o PIB brasileiro encolheu apenas 0,1%.

Em 2010, saltou 7,5% e cresceu outros 4% em 2011 -antes de Dilma Rousseff colocar tudo a perder nos anos seguintes, radicalizando o gasto público, a fim de se reeleger em 2014.

Passados dez anos da grave crise de 2009, os bancos centrais americano e europeu voltam a inundar o mercado global com liquidez (dólares e euros) baixando juros e comprando títulos de empresas e governos em dificuldades. Ao colocar mais dinheiro na praça, esperam que empresas e consumidores gastem mais, evitando outra recessão. A estratégia é a mesma de dez anos atrás, quando parte do dinheiro acabou "vazando" para investimentos em outros países.

Como ocorreu há uma década, o Brasil seria novamente um bom candidato a se beneficiar dessa montanha de dinheiro se estivesse com as contas mais ajustadas e se o governo Jair Bolsonaro se mostrasse mais confiável.

Apesar de sua pequena integração física global, o Brasil tem canais financeiros totalmente desimpedidos para investidores internacionais na Bolsa e nas empresas. É nessa área onde o país está hoje mais internacionalizado.

Assim, é péssima a notícia de que 230 fundos de investimento internacionais com US$ 16 trilhões em caixa tenham manifestado preocupação com as políticas ambientais de Bolsonaro em relação à Amazônia e os seus impactos sobre as empresas nas quais investem.

No front das contas públicas, a falta de articulação política do presidente também acaba de levar ao engavetamento no Congresso (sem nova previsão de análise) de um amplo pacote de medidas para controlar o aumento desenfreado dos gastos estatais.

Para avançar, o projeto precisa de aprovação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o mesmo palco das confusões do governo que atrasaram o trâmite da reforma da Previdência.

Com a deterioração da imagem do Brasil no exterior e a dívida pública se aproximando do equivalente a 80% do PIB (eram 51,5% em 2013), fica cada vez mais difícil ao Brasil e suas empresas se beneficiar da chuva de dólares e euros que voltou a cair forte lá fora.

FSP, 19/09/2019, Mercado, p. A21


https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/09/230-fundos-que-administram-r-65-trilhoes-exortam-brasil-a-proteger-a-amazonia.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/09/frente-a-nova-chuva-de-dolares-e-euros-pelo-mundo-brasil-pode-acabar-ficando-na-seca.shtml
 

As notícias publicadas no site Povos Indígenas no Brasil são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos .Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.